Nas práticas terapêuticas está cada dia mais difícil para os pacientes e seus familiares se fazerem escutar. Modelos fechados de diagnóstico, checklists enumerativos de itens a serem satisfeitos, classificações que conduzem precipitadamente para redomas farmacológicas, questionários padronizados que suprimem a compreensão e aceleram as decisões clínicas, encolhem cada vez mais o espaço para os pacientes manifestarem a versão subjetiva de seu sofrimento psíquico. Procedimentos que muito mais satisfazem necessidades burocráticas do que atentam a decifrar qual o melhor caminho da tentativa de cura para cada um. Ocorre que eles economizam dúvidas sem chegar a resolvê-las e questões sem chegar a formulá-las.
Não faltam também publicações intermediárias de todo tipo que exploram a ansiedade de recuperar o bem-estar e a urgência de acalmar uma dor emocional. Publicações que cumprem o papel publicitário de endereçar as demandas do público a serem capturadas na maquinaria da medicalização. Maquinaria que, muito mais por razões de mercado do que por razões de saúde, invariavelmente tende a reduzir o problema mental a um desarranjo molecular apagando o papel que nisso tem a experiência de vida.
Abrimos nesta nova coleção – “Escritas da vida” – um espaço para que os pacientes, suas famílias e os que compõem seu entorno deem um testemunho de sua experiência na saga de seu sofrimento e das vicissitudes ao percorrer os diferentes caminhos terapêuticos que lhes foram oferecidos. Trata-se, precisamente, de colocar nas mãos dos verdadeiros protagonistas da caminhada em prol de sua saúde mental uma pena autorizada pela sua própria experiência. Talvez isto ajude a escutar o que os interrogatórios fechados silenciam.

Diretor da Coleção
Alfredo Jerusalinsky